segunda-feira, 4 de março de 2013

Tarzan por Russ Manning


 TARZAN  POR RUSS MANNING.


Dentre todos os grandes nomes que forjaram a lenda de Tarzan nos comics, Russ Manning é por seu próprio mérito um dos principais integrantes em tão gloriosa lista. Seu trabalho brilha a altura dos grandes mestres Hal Foster e Burne Hogarth ao continuar a versão gráfica distribuída para os jornais e iniciada na Idade de Ouro das H.Q. americanas (1930-1950) precedendo além disso os trabalhos nos comic books realizados pelo também universal Joe Kubert para a DC, entre 1972 e 1977.
O ingresso em tão seleta lista foi garantida, entre outras razões de peso, pela fidelíssima adaptação dos romances ao formato dos quadrinhos do ícone universal criado enm 1912 por Edgar Rice Burroughs, estendendo-se como obra pessoal em um período que vai desde 1965 a 1979 sem interrupção, interessando a vários suportes editoriais.
A arte de Manning se desenvolve com o sabor único da classicidade e do diferenciado nos comic books da Gold Key entre 1965 e 1968), de onde o seu estilo amadurece e se liberta dos clichês estéticos impostos, atingindo o seu esplendor na versão distribuída a imprensa, especialmente no formato página dominical entre 1967 e 1979, para finalmente doutorar-se na realização de álbuns para o mercado europeu (1974/1976) aproveitando um módulo de grande liberdade criativa. É dono de uma tão brilhante carreira, infelizmente muito pouco conhecida no Brasil.
Nasceu em Van Nuys, California, em 1929, a poucos quilômetros do rancho Tarzana, de propriedade de Burroughs, e sede da Edgar Rice Burroughs Inc. rentável empresa que tem controlado a exploração dos direitos de Tarzan ao converte-lo em uma marca registrada. Boa parte das primeiras influencias que assimila
se devem às páginas dominicais assinadas por seus dois grandes autores, e sobretudo pelos próprios textos literários. Seu espírito narrador se forma nas escolas de arte, finalizando seus estudos nos últimos anos da década de quarenta. É convocado e enviado ao Japão, por motivo da guerra da Correia, realizando funções geográficas (elaboração de mapas), trabalho esse que não lhe impede de desenhar uma strip que é publicada nos boletins da base militar com o que tem inicio a sua atividade como quadrinista.
En 1952, após sua licença do serviço militar ativo, é contratado pela Dell Comics, editorial dependente da Western Publishing Company, que  ostenta os direitos de exploração de Tarzan para os comic books desde 1947. Este contrato é garantido graças aos seus estudos na Los Angeles Art Institute e a New York School of Visual Arts. 
Na empresa faz amizade com Jesse “Mace” Marsh (1907-1966), desenhista titular da primeira serie dedicada especialmente a Tarzan, e onde tem a primeira influência adquirida como profissional, o que, além
de tudo era uma imposição da Dell. Todos os desenhistas que realizam trabalhos nas series de Tarzan, adaptam seu estilo àquele inacabado e áspero de seu titular. Seu primeiro trabalho como profissional de quadrinhos não assinado (a Dell mantém o insidioso costume de não deixar constar as assinaturas das
equipes artísticas) é em duas histórias de Tarzan, publicadas respectivamente no número 114 de March of Comics em 1954, e no 59 (agosto de 1954) do título específico de Tarzan.

Russ Manning, plenamente integrado no departamento artístico da Dell, realiza para a editoria numerosas historias de sua lista de personagens, lançadas em sua série genérica de periodicidade semanal (Four Color) ou em suas  séries específicas respectivas, desde 1952 até 1962. Títulos como Sea Hunt, Wyatt Earp, Brothers of Spear, Dale Evans, Roy Rogers, Gene Autry... se beneficiam do seu estilo acadêmico. Estes trabalhos se alternam com material de preenchimento (fill-in) ou back-ups da serie Tarzan, quando o desenhista principal era Marsh, e o roteirista, o clérigo Gaylord Dubois.
Em agosto de 1962, sai o último número de Tarzan da Dell Comics, o 131, tendo continuidade a sua edição e numeração na Gold Key (também integrada na Western Publishing Company)  a partir do 132 datado de novembro de 1962. Russ Manning, como boa parte do plantel, completa a seleção do novo selo
editorial.
Índice de Trabalhos realizados por Russ Manning na Dell Comics são relativamente poucos, e caracterizados pela imitação do estilo do então titular Marsh, imposto pela direção editorial.




March of Comics:
    número 114. (1954). Tarzan and the Horns of Kudu.
    número 144. (1956). Tarzan in the master Dyer of the Kikuyu.
Tarzan:
    n. 59. (agosto de 1954). Boy.
    n. 63. (dezembro de 1954). Tarzan and the Canoe Safari.
    n. 76. (janeiro de 1956). Tarzan and Borok.
    n. 86. (novembro de 1956). Tarzan and the Policeman of Nairobi.
    n. 98. (novembro de 1957). Ilustrações.
    n. 101. (fevereiro de 1958). Ilustrações.
    n. 119. (março de 1960). Ilustrações.
    Annual n. 3. (1954). Boy makes a trade.
    Annual n. 4. (1955). Tarzan and the guardians of the caves.
Tarzan and the Reptile with a Heart. Tarzan and the Honor of 
Muviro.
    Annual n. 5. (1956). Tarzan and the Tall Warriors.
    Annual n. 6. (1957). Boy and the Cassava Thief. Jane in the 
Good Luck Gift.
    Annual n. 7. (1958). Boy Braves a Siege by Lions.





Tarzan na Gold Key

Um trabalho magistral de Russ Manning.




A libertação artística de Manning na Gold Key acontece na série específica Magnus Robot Fighter 4000 A.D. (conhecido e catalogado como Magnus Robot Fighter, simplesmente) cujo número 1 data de fevereiro de 1963, mantendo-se no mercado até o 46 (de janeiro de 1977). Manning foi o artífice das 21 primeiras edições e, após parar de desenhar esta, a série começou a se comportar de modo caprichoso: somente cinco números en 1969, dois anos sem aparecer até que saiu o número 29, quatro o cinco números por ano  na última etapa...
A assinatura de Manning apareceu na realidade nos números 1 ao 22 e do 28 ao 43, mas a partir do 22 todos foram reimpressões de material anteriormente publicado. Também conteriam obras de Manning reimpressas destes comic books da Gold Key as series: Magnus Robot Fighter 4000 A.D., de Valiant, dois números, datados de 1990 e 1991 respectivamente; Magnus Robot Fighter. The Vintage, de Valiant, de quatro números, aparecidos em 1992; e Magnus Robot Fighter. The Original, de Valiant / 
Western Pub., de três números, aparecidos en 1995.
Por outro lado, a equipe formada por Marsh e Dubois se mantém em Tarzan até o número 153, com as mesmas premissas estéticas e ideológicas da fase precedente da Dell, mostrando já claros sinais de desgaste. Mas na Gold Key, a licença de Tarzan incluía também outros títulos. O mais relacionado com a mitologia do Rei da Seva era aquele protagonizado por seu próprio filho, Korak, aparecido pela primeira vez como tal na novela The Son of Tarzan, ( O Filho de Tarzan) na qual por reiteração de enredo e um mal uso do tempo narrativo, o personagem se perde na mesma selva e é recriado pelos mesmos macacos que foram companheiros de seu pai, naquela que é a pior novela da série.
Já desde seu primeiro número (janeiro de 1964) a revista passa a ser feudo de Russ Manning, realizando até a décima primeira edição, além da vigésima primeira.  A Gold Key manteve o título até a edição número 45 datada de janeiro de 1972.
A presença de Korak ratifica una incômoda contradição argumental com o sócio Boy, menino adotado por Tarzan e sua noiva Jane como resultado de um acidente aéreo no qual um bebê veio a ser o único sobrevivente, segundo os feitos narrados no filme Tarzan and his Son, (O Filho de Tarzan) de 1939, dirigido por um amador Richard Thorpe.


O equilibrado trabalho de Manning consegue melhores resultados em Korak, em detrimento da serie principal de Tarzan, motivo pelo qual a direção da Gold Key começa a planejar um retorno de enredo até a temática original dos pulps. Há ainda um outro acontecimento que contribui com a mencionada volta.
Vários contos de Edgar Rice Burroughs incluídos no livro Jungle Tales of Tarzan (Tarzan na Selva) haviam ficado livres de direitos autorais, o que fez com que Joe Gill, editor de Charlton Comics, os adotasse em uma série de revistas em quadrinhos que trás o mesmo título genérico e que dispõe de quatro edições datadas entre dezembro de 1964 e julho de 1965.
Com os pessoais e originais desenhos de Sam Glanzman, a editoria apresenta um retorno às essências literárias de Tarzan e esse feito é abençoado por um saudável êxito de crítica e de público. A Edgar Rice Burroughs Inc. e a própria Gold Key entram na justiça e conseguem o cancelamento da edição alegando que Tarzan é uma marca registrada e que sua exploração nos comic books é exclusiva.



Com a chegada de Russ Manning a titularidade de Tarzan nas historias “Descent into the Past” e “The Fury of Gayat” (número 154, novembro de 1965) a direção da Gold Key dispõe de todos
os argumentos necessários para que as futuras histórias de Tarzan adaptem os relatos originais da versão das novelas, justamente quando o estilo de Russ Manning havia se liberado da limitação resultante de imitar Jesse Marsh, que morreria poucos meses depois.
Ficam para trás as civilizações de inspiração grego/persa, a vasta delimitação do território de Pal-ul-don e a casa na árvore.

Jane deixa de ser a noiva de Tarzan para tornar-se a sua esposa e morar em uma enorme fazenda rodeada pela selva e próxima a tribo dos Waziri, da qual seu marido é chefe e conselheiro honorário. Korak é filho deste matrimônio, e Boy se esvai do mesmo modo que as influências passageiras.
Russ Manning adapta em 17 comic books as primeiras dez novelas do herói de Burroughs, escritas com fidelidade e extraordinária capacidade de síntese por Gaylord Dubois no melhor trabalho como roteirista não creditado.
A versão destes clássicos se reveste de uma grande modernidade. O autor abandona as influências impostas pela editora até Jesse Marsh, liberando o seu riquíssimo e acadêmico estilo. Estilo que bebe das fontes gráficas mais reconhecidas. Hal Foster se apresenta no detalhismo cênico tão adequado para ilustar em quadrinhos sequenciais o fantástico mundo de Burroughs. Os ângulos e domínio de imagens, além da introdução de grandes painéis de paisagens carregadas, é próprio de Burne Hogarth. O asseio anatômico e o dinamismo suave com que Russ Manning insufla vida a seus personagens traz alguma coisa de Alex Raymond. As belíssímas mulheres, entre as quais se encontra Jane, estão vestidas com escassas e sensuais roupas, quando não de sugestivos retalhos, dentro da mais pura tradição do cheesecake ou do girl good art.  Ademais o elegante traço que já é completamente pessoal, materializa terríveis e expressivas ameaças em forma de animais pré-históricos, todo tipo de dinossauros, e uma dilatada variedade de antropoides e outros hominídeos com apófises caudais e pés prênsis.  
Seu ingresso no panteão dos grandes clássicos fica então plenamente justificado, ratificando-se de maneira categórica na continuidade de uma escola, que começada pelos talentos já citados, culmina com o ingresso de novos artistas que seguem na grande maioria a rota traçada por estes precursores. Pense-se em Mark Schultz, Dave Stevens e Frank Cho, que dão as boas vindas, entre outras, a esta influência citada.

Ao recorrer às fontes literárias originais, as tramas ganham em complexidade , aparecendo os personagens muito mais matizados, e apresentando um relato mais crível, àqueles que, e sem o excesso de textos para apoiarem os quadros, na síntese efetiva e simples aplicada por Dubois com textos que não são cansativos, dispensado a explicação do que acontece nos desenhos.
Estes 17 exemplares se beneficiam do ambiente original criado por Burroughs, presente na representação de aviões, barcos, armas e uniformes próprios do final do século XIX e início do século XX, quando a África era um continente tão misterioso e tão inexplorado que constituía um cenário mais adequado para histórias épicas do que para a apologia do colonialismo e racismo subsequente.
Se graficamente o Tarzan de Manning é um dos melhores, senão o melhor, do ponto de vista argumental e narrativo não deixa dúvidas. Relatos bem montados, sobre personagens melhor elaborados, se opõe a uma sucessão de anedotas alongadas artificialmente que caracterizam histórias anteriores entre as quais se incluem as mais clássicas. Aquelas assinadas por autores tão reconhecidos como Foster e Hogarth.
Em 1967, a história narrada nestas linhas toma dois caminhos diferentes. Por um lado, o extraordinário trabalho de Manning abre-lhe o caminho para a realização de Tarzan no formato para os jornais distribuídos pelos sindicatos, onde seu estilo narrativo amadurece até o ápice. Por outro lado, o comic book da
Gold Key vai perdendo espaço, apesar da dignidade com que com a qual vai se mantendo a sua sequência.
Em fevereiro de 1972 é publicado a última edição, a 206, que adapta a décima sétima novela do mito selvático: Tarzan e o Homem-Leão.
Os direitos de Tarzan passam a ser administrados pela DC, sendo o seu primeiro número o 207 (abril de 1972) e entrando na lenda o autor e editor Joe Kubert, que segue mantendo em  alto nível sua carreira gráfica.



    n.154. (novembro 1965). Descent into the Past
                                      The Fury of Gayat
    n.155. (dezembro 1965). Tarzan of the Apes
    n.156. (fevereiro 1966). The Return of Tarzan
    n.157. (abril 1966). The Beasts of Tarzan
    n.158. (junho 1966). The Son of Tarzan
    n.159. (agosto 1966). The Jewels of Opar
    n.160. (setembro 1966). Flight from Terror 
    n.161. (outubro 1966). Fight for the Treasure
    n.163. (janeiro 1967). Tarzan the Untamed
    n.164. (fevereiro 1967). The Lions of Xuja
    n.166. (abril 1967). Tarzan the Terrible
    n.167. (maio 1967). Incredible Pal-Ul-Don
    n.172. (outubro 1967). Tarzan and the Golden Lion
    n.173. (dezembro 1967). Jad-Bal-Ja and the Imposter
    n.174. (fevereiro 1968). Tarzan and the Ant Men
    n.175. (abril 1968). Shrunken Giant
    n.176. (junho 1968). Tarzan, Lord of the Jungle
    n.177. (julho 1968). Valley of the Sepulcher
    n.178. (agosto 1968). Tarzan of the Apes. Reimpressão do
    número 155.

Entre os desenhistas não creditados que alternaram seus trabalhos com Manning ou o substituíram figuram Doug Wildey, Alberto Giolitti (n.168, com um Tarzan com traços do ator Ron Ely, protagonista da série de televisão produzida entre 1966 e 1968), Mal Keefer (de estilo similar a Manning), Paul Norris (de traço inconfundível), Mike Royer e os excelentes Gray Morrow e Warren Tufts.
Entre as ediciões 179 até 195 foram adaptadas sucessivas novelas. O número 202  foi uma reimpressão de Manning, e no número 206 (fevereiro de 1972) foi adaptada a novela Tarzan and the Golden Lion, sendo este o último da fase Gold Key.



Os vértices estéticos da arte de Russ Manning.


O extraordinário trabalho realizado nos comic books de Tarzan, abre a Manning a possibilidade de realizar as tiras diárias e páginas dominicais, sendo escolhido para tal fim por Robert Hodes, executivo da Edgar Rice Burroughs Inc. O trabalho semanal distribuído pelos jornais ia ladeira abaixo desde o justificado abandono de Burne Hogarth em 1950, pois autores como Bob Lubbers (agosto de 1950 a fevereiro de 1954) e John Celardo (fevereiro de 1954 a janeiro de 1968) não haviam sido capazes de remontar, apesar, ou talvez, a a adoção do estilo de seu máximo factótum. Mas se as sunday pages haviam conseguido manter um rendimento espetacular até os anos cinquenta, as daily strips não conseguiam emplacar desde aquela assinada por Hal Foster em 1929, que além de ter adaptado a primeira novela de Tarzan, deu o tiro de partida para os comics realistas da Idade de Ouro.
Desde Rex Maxon nos anos trinta a John Celardo nos anos sessenta, as tiras diárias nunca conseguiram seguir o mesmo curso e alcançar o sucesso das páginas dominicais.
O trabalho de Manning na versão sindicalizada vai de 11 de novembro de 1967 a 29 de julho de 1972 nas tiras diárias, e de 14 de janeiro de 1968 a 24 de junho de 1979 nas páginas dominicais coloridas.
As amplas possibilidades de narrativa e diagramação presentes no comic book não existem na limitada meia tira.  O profissionalismo e o brilhantismo de um autor maduro se adapta ao limitado espaço conseguindo uma confecção e textura extraordinária em um meio que já manifestava uma clara obsolescência para as figuras realistas e seriadas.


Como os grandes precedentes que tornaram famoso o formato, Milton Caniff, Alex Raymond ou Al Capp, Maniing voltava a demonstrar o seu talento ao exprimi-lo em tão pouco suporte gráfico. Nos cinco anos nos quais ele permanece nas tiras, e a um ritmo de trabalho frenético, escreve e desenha sete histórias baseadas na cosmologia burroughsiana, dilatando ao máximo as possibilidades expressivas, a base de panoramas, vinhetas, sequencias e profundidade dos quadros que trazem um cenário convincente ao universo fantástico de seu autor literário.
Encerra assim quarenta e três anos de dailies de maneira tão brilhante como seu luminoso inicio, deixando no esquecimento trinta e oito anos de histórias mediocres.


Mas se no desenvolvimento das tiras diárias Russ Manning se depara com as travas próprias do suporte, não acontece o mesmo com as sunday pages, de formato mais de acordo para o desenrolar da narrativa. Alcança a seu mais alto ponto  de amadurecimento e esplendor, baseando-se, como no caso anterior, no universo literário do personagem, sem adaptar de maneira especial nenhuma de suas novelas. Desta forma, se ampliam os limites geográficos de territórios míticos como Opar, Pal-ul-don, o país dos homens-leões, a terra dos homens-formiga, as cavernas povoadas por assustadoras criaturas que raptam mulheres para procriarem a sua raça, ou os territórios de Pellucidar e a Terra Esquecida pelo Tempo, rendendo um total de 26 histórias com o cheiro burroughsiano.
A suposição gráfica como montagem, a composição dos painéis, o desenvolvimento dos personagens, e a vitalidade que emanam as coreografias, bebe dos mesmos preceitos e influências daqueles dos 17 comic books da Gold Key, colocando a produção destes anos nos máximos estéticos de sua carreira.

Em 1974, como consequência da magnífica acolhida do livro Tarzan of the Apes, que havia significado a volta de Burne Hogarth aos quadrinhos, a Edgar Rice Burroughs Inc. propõe a Manning ampliar este formato para produzir histórias do personagem diretamente em álbum, pensando também no mercado europeu, onde este formato estava bem mais consolidado que nos Estados Unidos.


São quatro os títulos realizados pelo autor: Tarzan in the Land that Time Forgot, Tarzan in the Pool of Time, Tarzan and the Beastmaster e Tarzan in the Savage Pellucidar, em uma coprodução com a Edgar Rice Burroughs Inc. e a John Claude Lattes.
Os dois primeiros foram publicados no Brasil em 1976/77 pela Editora EBAL com os títulos O Mundo Que O Tempo Esqueceu e O Poço do Tempo. Nos Estados Unidos essas duas histórias foram publicadas em um único álbum pela Dark Horse em 1996, com um capa extraordinária.
O autor maduro, acostumado a manejar as mesmas referências, mistura a triologia de The Land that Time Forgot (A Terra que o Tempo Esqueceu, de Burroughs) com o próprio Tarzan, em uma história, na qual insiste sobre os mesmos argumentos, destacando uma presença de mulheres pouco vestidas, como jamais fizera (a tolerância quanto ao sexo do velho mundo).
Russ Manning se consolida nestes trabalhos como o melhor desenhista de Tarzan para o mercado europeu.

Russ Manning, o melhor.


As histórias de Tarzan realizadas por Russ Manning representam a melhor adaptação do mito selvático nos quadrinhos ao adicionar um caráter narrativo ao magnífico trabalho ilustrativo de seus capacitados antecessores. O impassível e decorativo herói de Foster e a gesticulante e nervosa versão de Hogarth são nada mais que sucessivas sequências de belíssimos desenhos com um álibi argumental tão trivial quanto anedótica.  Por outro lado, a eficiente e simples narrativa de Dubois brilha ante o inacabado estilo de Marsh, ou outros desenhistas que remedam seus traços, incluído aí o início de  Manning, na etapa da Dell o começos da Gold Key.
Seu trabalho desde 1966 a 1979, en três suportes editoriais diferentes, concede ao herói universal a possibilidade de renascer em brilhantes histórias, concebidas desde um prisma tão ortodoxo quanto coerente, e saindo de um trabalho carregado de vícios até uma forma de narrativa tão clássica quanto cristalina.  O elegante traço, tão cheio de vida, recolhe influencias de contrastados precedentes, além de gerar as suas próprias, entrando por direito próprio na categoria de mestre.
Segundo o The Atlas Comics Web Site (http://web2.chicagonet.net/~atlas/best4.htm), documentadíssimo website que classifica e nomeia os 100 autores de comic books mais transcendentes de todos os tempos, Russ Manning ocupa o posto sexagésimo sétimo, estando ocupada a primeira posição por Jack Kirby e a última por Jerry Ordway. O extraordinário autor número 67 demonstra que a verdadeira essência de Tarzan foi definida no amanhecer do século XX por obra do conciso estilo de um escritor pulp, que supera la maioria das versões medíocres ou pastiches literários que outros autores enaltecidos pela empresa que
detinha a franquia realizaram.
Tarzan é obra de Edgar Rice Burroughs e, segundo o seu biógráfo, os triunfos deste californiano desprendem aura própria.
A estrela de Manning se acaba com sua própria vida, quando um câncer o leva em 1981 em pleno amadurecimento criativo pondo fim a sua simples e clara arte a serviço das histórias galáticas de George Lucas.
Um grande pai e marido, uma vida curta e discreta, e um narrador e desenhista excepcional dos quadrinhos.



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